Edson Braga aponta resíduos industriais como nova fronteira de valor na indústria de alimentos

Empresário defende que cascas, bagaços, sementes, soro e outras correntes secundárias sejam analisados como potenciais matérias-primas, e não apenas como custos de descarte
Durante décadas, a indústria de alimentos aprendeu a separar rapidamente aquilo que considerava produto daquilo que classificava como resíduo. Cascas, bagaços, sementes, soro, aparas e outras frações passaram a ser tratadas, em muitos casos, apenas como materiais que precisavam sair da fábrica.
Para Edson Braga, essa lógica começa a mudar.
Parte daquilo que hoje representa custo de destinação pode conter valor nutricional, funcional, energético ou tecnológico. A questão, portanto, não está apenas em reduzir desperdício, mas em descobrir quanto valor ainda deixa a fábrica sem ser aproveitado.
A discussão passa a ser também de competitividade industrial.
Resíduo pode ser matéria-prima mal aproveitada
Classificar uma corrente como resíduo muda imediatamente a forma como ela é tratada.
A pergunta deixa de ser “o que existe aqui?” e passa a ser “como descartar?”.
Essa mudança de perspectiva pode esconder oportunidades relevantes.
Um material atualmente descartado pode substituir uma matéria-prima comprada, gerar um ingrediente, servir outra indústria ou até originar um novo negócio.
Por isso, Edson Braga defende uma mudança simples na forma de analisar perdas: em vez de medir apenas quanto resíduo uma fábrica produz, também deveria ser avaliado quanto valor sai sem ser capturado.
A laranja mostra como uma matéria-prima pode gerar várias saídas
Uma fruta não precisa resultar em apenas um produto.
No processamento de laranja, por exemplo, além do suco existem casca, polpa, fibras, óleos, pectina e outras frações com diferentes aplicações.
O mesmo raciocínio vale para inúmeras cadeias agroindustriais.
Frutas, grãos, leite, carnes e vegetais geram fluxos que podem conter proteínas, fibras, açúcares, gorduras, aromas, pigmentos ou compostos funcionais.
O desafio está em identificar quais desses elementos podem ser aproveitados de maneira segura e economicamente viável.
O soro do leite mostra como valor pode mudar
Um dos exemplos mais conhecidos dessa transformação é o soro gerado na produção de queijos.
Durante anos, ele foi tratado principalmente como um problema ambiental quando descartado de forma inadequada.
Com o avanço da tecnologia, passou a dar origem a proteínas concentradas, isolados, lactose e ingredientes usados em diferentes segmentos.
O caso mostra como inovação pode alterar completamente a definição econômica de uma corrente industrial.
Aquilo que antes custava dinheiro para eliminar pode se transformar em algo que outras empresas estão dispostas a comprar.
Fábricas podem mapear valor residual
Uma das propostas de Edson Braga é que empresas criem um Mapa de Valor Residual.
A análise partiria de cada corrente que sai do processo e buscaria entender volume, composição, estabilidade, custo logístico e possíveis aplicações.
Existe proteína?
Fibra?
Gordura?
Aroma?
Pigmento?
Energia?
Água?
Há tecnologia disponível para separação ou transformação?
Existe mercado?
Essa leitura pode revelar oportunidades que não aparecem nos fluxogramas tradicionais de produção.
Nem tudo precisa voltar a ser alimento
Valorização de coprodutos não significa transformar qualquer sobra novamente em alimento humano.
Segurança continua sendo prioridade.
Em muitos casos, determinada corrente pode fazer mais sentido em alimentação animal, fermentação, bioenergia, fertilizantes, materiais ou outras aplicações industriais.
O objetivo deve ser encontrar o uso de maior valor responsável, e não forçar uma solução alimentar onde ela não faz sentido.
Essa diferença evita transformar economia circular em projeto caro e pouco efetivo.
Existe uma hierarquia de aproveitamento
Uma mesma corrente pode gerar diferentes níveis de valor.
Pode ser usada diretamente para geração de energia.
Pode servir para alimentação animal.
Pode passar por fracionamento para extração de fibras, proteínas, aromas ou compostos funcionais.
Depois, somente o que não tiver aplicação de maior valor seguiria para usos energéticos ou descarte.
Essa lógica aproxima a indústria de alimentos do conceito de biorrefinaria.
Em vez de buscar apenas um destino final, a empresa tenta extrair sucessivamente o maior valor possível de cada fração.
A próxima fonte de ingredientes pode já estar sendo produzida
Quando uma empresa precisa de uma nova fonte de proteína, fibra ou outro componente, a reação natural costuma ser buscar outra matéria-prima agrícola.
Mas existe outra possibilidade.
Antes de ampliar cultivo, talvez seja mais eficiente investigar aquilo que já está sendo produzido dentro de cadeias existentes.
Novas culturas exigem terra, água, energia, fertilizantes, transporte e capital.
Se determinada necessidade puder ser atendida por um coproduto já disponível, pode existir ganho econômico e ambiental.
Isso não significa que todas as correntes sejam aproveitáveis.
Significa apenas que deveriam ser analisadas antes de serem descartadas.
Inteligência artificial pode acelerar a busca por aplicações
A quantidade de variáveis envolvidas cria espaço para uso de IA.
Dados sobre composição de coprodutos podem ser cruzados com necessidades de formulação, propriedades funcionais, processos de extração, preços e características regulatórias.
Uma corrente rica em fibra pode encontrar aplicação em panificação.
Outra pode servir como substrato para fermentação.
Outra pode apresentar potencial para aromas, ingredientes funcionais ou materiais.
A tecnologia não cria valor sozinha, mas pode ajudar pesquisadores a encontrar conexões que antes seriam difíceis de identificar.
Fermentação amplia possibilidades
A fermentação também pode funcionar como ponte entre correntes de baixo valor e novos produtos.
Microrganismos conseguem transformar determinados substratos em ácidos, enzimas, aromas, proteínas e outros componentes.
Isso significa que um coproduto não precisa necessariamente ser utilizado da forma como saiu do processo.
Pode alimentar outra transformação.
Quando isso acontece, uma linha produtiva começa a funcionar mais como um ecossistema, no qual a saída de uma etapa se torna entrada de outra.
A matemática continua sendo decisiva
Nem toda ideia tecnicamente interessante se transforma em negócio.
O volume pode ser pequeno.
O material pode deteriorar rapidamente.
O transporte pode ser caro.
A composição pode variar.
A extração pode não ser economicamente viável.
Por isso, circularidade também precisa passar por análises de escala, estabilidade, logística, segurança e mercado.
Um coproduto só se torna matéria-prima quando alguém consegue utilizá-lo de maneira consistente e economicamente racional.
Fábricas próximas podem compartilhar oportunidades
Em algumas situações, uma única planta não produz volume suficiente para justificar investimento em valorização.
Mas várias operações próximas podem gerar escala conjunta.
Isso abre espaço para modelos de simbiose industrial.
Uma empresa pode fornecer fibra para outra.
Calor excedente pode ser aproveitado por uma operação vizinha.
Uma corrente secundária pode alimentar processos de fermentação de outro negócio.
A eficiência passa a ser analisada não apenas dentro da fábrica, mas também no território industrial.
Brasil possui condições particularmente favoráveis
A diversidade agroindustrial brasileira cria um campo amplo para esse tipo de desenvolvimento.
Café, cacau, laranja, cana, milho, soja, mandioca, açaí, coco, frutas tropicais, leite, carnes e grãos geram grandes volumes de correntes secundárias.
Cascas, farelos, soro, fibras, biomassa e águas de processo podem conter valor ainda pouco explorado.
Para Edson Braga, parte da próxima geração de empresas de ingredientes pode nascer justamente dessa capacidade de enxergar de outra forma aquilo que o país já produz em escala.
P&D pode assumir uma nova missão
Tradicionalmente, desenvolvimento de produtos pergunta quais novos ingredientes precisam ser comprados.
A próxima etapa pode incluir outra questão: quais ingredientes a empresa já possui sem perceber?
Essa mudança amplia o papel do P&D.
Além de desenvolver produtos finais, equipes podem passar a investigar correntes secundárias, novos usos e aplicações de maior valor.
O objetivo deixa de ser apenas reduzir desperdício.
Passa a ser encontrar valor perdido.
Sustentabilidade precisa fazer sentido econômico
Projetos de reaproveitamento só ganham escala quando conseguem unir impacto ambiental e viabilidade industrial.
Se uma solução depende permanentemente de perdas financeiras para funcionar, dificilmente será adotada em larga escala.
Por isso, a transformação mais relevante acontece quando reduzir descarte também gera receita, reduz compras, melhora eficiência ou cria novas oportunidades comerciais.
Nesse ponto, sustentabilidade deixa de ser apenas obrigação ambiental.
Passa a ser estratégia.
A pergunta precisa acontecer antes do descarte
Para Edson Braga, uma corrente que sai da fábrica deveria passar por uma última análise antes de ser enviada definitivamente para descarte.
Ela realmente terminou sua função?
Ou apenas terminou sua participação naquele produto específico?
Pode existir ali o começo de um novo ingrediente, processo, negócio ou cadeia.
A indústria passou décadas aperfeiçoando a transformação de matérias-primas em produtos. A próxima etapa pode ser aprender a transformar uma parcela cada vez maior dessas matérias-primas em valor. E, em alguns casos, a próxima fonte estratégica pode já estar dentro da fábrica — apenas sendo chamada pelo nome errado.



